Após a “lufada de ar fresco”, como irá respirar o PSI 20?

O primeiro trimestre foi quase eufórico na bolsa. O Jornal Económico sondou seis analistas para perceber o rumo do índice nos próximos meses.

REUTERS/Benoit Tessier

Foi mesmo em cima da linha. No último dia de março, o PSI 20 encerrou acima dos 5.000 pontos, pela primeira vez desde maio de 2016. O sprint final permitiu ao índice registar o melhor trimestre em dois anos, a valorizar 7,02%.

“O índice nacional terminou o primeiro trimestre com uma performance em linha com os demais pares europeus, que terminaram o trimestre com ganhos em torno dos 6%-7%”, referiu Marisa Cabrita, gestora de ativos da Orey. Vincou que, embora nos últimos trimestres de 2016 o PSI20 tenha seguido a tendência positiva registada pelo Eurostoxx50, apresentou consecutivamente uma underperformance, que foi muito expressiva no final do ano. “O comportamento apresentado no primeiro trimestre acaba assim por dar continuidade ao movimento iniciado no último trimestre de 2016, especialmente em dezembro, no rescaldo das eleições americanas, cuja eleição de Donald Trump levou a ganhos acentuados no mercado acionista global”.

As promessas de Trump sobre uma reforma fiscal e estímulos à economia, embora não estejam detalhadas, levaram os principais índices norte-americanos a novos máximos durante o trimestre, contagiando as bolsas europeias. A praça portuguesa demorou a acompanhar esse momentum, pois estava pressionada pelo impacto do aumento de capital do BCP e pelo profit warning dos CTT.

João Queiroz, diretor de negociação do Banco Carregosa, explicou que, no entanto, “a meio do trimestre, o PSI 20 começou a convergir com os restantes índices e poderá mesmo ter tido o melhor desempenho a par do espanhol IBEX 35 e do alemão DAX 30”, adiantando que um aumento do apetite pelo risco ajudou à recuperação do índice português. Esta aceleração foi visível no disparo de 7,74% em março, com o PSI 20 animado pela recuperação do BCP, parcialmente devido ao processo de estabilização da banca em Portugal, e da Oferta Pública de Aquisição da EDP à EDP Renováveis na última semana do mês.

O cenário macroecónomico em Portugal também foi um fator positivo. “O crescimento da economia portuguesa está a acelerar e contribui para uma perspetiva positiva dos resultados das cotadas e da estabilização do rácio da dívida pública”, referiu Pedro Lino, presidente da corretora Dif Broker, destacando o setor do retalho. “A recuperação do consumo continua a refletir-se nas vendas da Sonae”, enquanto “as perspetivas de crescimento catapultaram a Jerónimo Martins para máximos, mesmo tendo apresentado resultados em linha com o esperado”.

E agora?
Após esta “lufada de ar fresco”, como descreveu José Correia, gestor da corretora XTB, a grande questão é se o índice irá prolongar os ganhos no segundo trimestre. Para três dos seis analistas consultados pelo Jornal Económico, a resposta é não, com previsões de uma desvaloriação entre 2% e 10%, ou seja, para entre os 4.900 e os 4.500 pontos. Dois dos analistas prevêem subidas de 2% e 10% , respetivamente, enquanto outro antecipa que o trimestre seja flat.

Tal como o entusiasmo dos primeiros três meses do ano foi influenciado por fatores externos, mais do que domésticos, também os riscos para o próximo trimestre acompanham essa tendência. O primeiro desses fatores é mesmo os EUA de Donald Trump e a dúvida sobre quando, ou se, vai concretizar as prometidas reformas. “Se a ‘montanha parir um rato’, os efeitos poderão ser avassaladores nos mercados financeiros. Se Trump não ‘entregar’ ao mercado o que o mercado espera, poderemos ter uma violenta correção em baixa dos índices, e no PSI 20 por contágio”, antecipa o chefe de treasury e trading do Montepio, Miguel Gomes da Silva.

Na Europa também há incerteza política, com a ameaça Le Pen a encabeçar a lista. A apenas duas semanas da primeira volta das eleições presidenciais em França, a equipa de research do banco BiG alerta que “as sondagens não dão demasiadas hipóteses a Marine Le Pen, mas a memória recente da eleição de Trump e do voto a favor do Brexit são um lembrete do quão binários e imprevisíveis os eventos eleitorais podem ser”.

Gomes da Silva, do Montepio, concretizou que “na remota possibilidade de Le Pen ganhar”, as bolsas europeias vão corrigir em forte queda, as taxas de juro vão subir na zona euro e descer nos Estados Unidos. “O PSI 20 irá por arrasto”, acrescentou. “Independentemente deste cenário, deveremos assistir a alguma volatilidade à medida que mais sondagens forem conhecidas e em particular entre a primeira e segunda voltas”.

Espera pelo BCE
A par das eleições em França, mas também na Alemanha, os mercados europeus serão influenciados no segundo trimestre por dúvidas sobre o rumo da política monetária. O programa de compra de ativos na zona euro do Banco Central Europeu (BCE) tem impulsionado a recuperação económica, mas o ritmo mensal de aquisições diminuiu em 25% em abril para 60 milhões de euros e os investidores estão à espera de sinais sobre o início do tapering, ou seja, os planos do BCE para o fim do programa.
Portanto, é o timing dessa decisão que centra as atenções. “O anúncio do tapering e alívio da política monetária expansionista poderão ter um impacto negativo no mercado acionista”, disse o chefe de treasury e trading do Montepio. “Tudo dependerá da ênfase do discurso e da velocidade a que as taxas reagirem em alta”.

O final do programa de compra de ativos só está planeado para dezembro de 2017, mas, para a equipa de research do BiG, à medida que essa data se aproxima, os investidores vão começar a ficar ansiosos acerca do que vai acontecer.
“Ainda existe a expetativa de que o BCE estenda o programa, “mas caso a inflação continue a subir na zona euro, é possível que o presidente se veja obrigado a tomar medidas fora do que se espera. O segundo trimestre provavelmente ainda é precoce para tais medidas, mas não deixa de ser um risco a mencionar”, adiantou.

Um ajustamento do programa de compra de ativos, quer seja um prolongamento a menor ritmo ou o anúncio do fim, vai ter impacto nos países da zona euro. Portugal é visto como um dos países mais expostos e Marisa Cabrita, da Orey, recordou que as yields das obrigações portuguesas dependem “em grande medida” dos estímulos do BCE e “da consequente manutenção do prémio de risco da zona euro em níveis estáveis.

No entanto, a gestora de ativos sublinha que “um desempenho positivo da economia portuguesa, uma execução orçamental favorável e a estabilidade política contribuem também para a manutenção do prémio de risco em níveis considerados reduzidos”. Os analistas são consensuais que o futuro interno com menor volatilidade e risco tem benefícios para a bolsa.
Pedro Lino, da Dif Broker, concordou que “o crescimento da economia portuguesa está a acelerar e contribui para uma perspetiva positiva dos resultados das cotadas e da estabilização do rácio da dívida pública”. Em termos setoriais, Lino antevê um trimestre favorável para a construção e para a banca que “parecem ter caminho aberto para recuperar, ao fim de vários anos de quedas”.

Sobre a banca, Gomes da Silva, do Montepio, salientou que o desfecho para a solução da venda do Novo Banco “terá, aparentemente, sido bem recebido pelo mercado”. Já João Queiroz, do Banco Carregosa, sublinhou o potencial de empresas industriais de pendor exportador que acompanham mais facilmente índices europeus do que o PSI 20. “Essa maior correlação com os índices europeus, que pode manter-se na Altri e na Navigator, faz destes títulos casos interessantes de investimento”, disse.

Adiantou que está menos otimista com “utilities mais endividadas/alavancadas dado o cenário de subida de juros cada vez mais próximo”. Esse setor estará, sem dúvida, em foco até ao fim do trimestre já que é esse o prazo para o fim da OPA da EDP à Renováveis.



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