António Costa Pinto: “O PT já tinha um enorme desgaste político e eleitoral”

A poderosa Rede Globo apoiou Michel Temer contra Dilma, mas está a afastar-se do presidente.

Foto cedida

Para António Costa Pinto, a corrupção está a levar o Brasil para o fim da linha. A coesão social está em causa, a mobilidade social parou e a classe média está em refluxo. Único ponto positivo: os militares continuam nos quartéis.

A condenação de Lula da Silva é um problema para o PT?

Sim e não. O PT já tinha um enorme desgaste político e eleitoral. A condenação de Lula da Silva é feita num quadro de uma condenação geral da classe política brasileira e de todos os grandes partidos da cena política – e que está a chegar ao presidente Michel Temer, que até Fernando Henrique Cardoso já aconselhou a deixar o lugar. Isto é, o efeito sobre o PT e a sua participação nas eleições já se deu.

É, portanto, um problema para o sistema.

É mais um elemento que mostra uma crise geral dos políticos e dos partidos. O que temos é uma enorme crise de legitimidade de todos os agentes políticos. É interessante verificar que a direita brasileira derruba Dilma Roussef com um impeachment, mas depois disso não consegue ganhar qualquer legitimidade.

Qual será o resultado dessa falta de legitimidade?

Creio que poderão surgir personalidades com algum carisma que apostem num populismo de cariz antipartidário. O país tem essa apetência, basta lembrar o episódio de Marina Silva, entre outros.

E com um impacto claro nos partidos tradicionais.

Sim. Que ainda por cima estão pouco ancorados ao tecido social. As pessoas já perceberam que há uma corrupção estrutural que nunca muda.

Estamos a falar da América do Sul, o que quer dizer que se impõe a questão: os militares estão sossegados nos quartéis?

Assim parece. No caso brasileiro, os militares têm uma autonomia em relação à política que têm preservado. E têm inclusive resistido, respondido negativamente a alguns apelos vindos de alguns atores políticos. E mesmo a corrupção, que anda por todo o lado, aparentemente não chegou à instituição militar. Mas abundam muitas teorias da conspiração – não envolvendo militares, mas o sistema judicial e os media. É interessante observar que a Rede Globo, dominante no Brasil, apoiou o impeachment de Dilma Roussef, mas entretanto tem vindo a demarcar-se de Michel Temer.

Entretanto, os indicadores económicos não ajudam.

Há um claro aumento das desigualdades, a mobilidade social foi novamente posta em causa e a classe média está a baixar o seu nível de vida. Até as classes mais altas, que apoiaram o impeachment de Dilma Roussef, estão completamente desorientadas face a estes níveis de corrupção generalizada. O arranque do Brasil para se transformar numa sociedade coesa está adiado.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.



Mais notícias
PUB
PUB
PUB