“Algo está errado nas competições europeias”. Fosso de milhões está a matar o futebol do ‘Velho Continente’?

Poderá uma equipa portuguesa continuar a aspirar a conquista de uma prova europeia ou este fosso de milhões de euros está a matar a competitividade no futebol do 'Velho Continente'?

Carl Recine/Reuters

O recente estudo do CIES – Observatório do Futebol mostra que o fosso entre os colossos do futebol europeu e os clubes fora das cinco ligas mais importantes da Europa, está a aumentar. Para se ter uma noção, só o Manchester City gastou 878 milhões de euros para ter o plantel atual e o Paris Saint Germain investiu 808 milhões de euros para garantir os jogadores que tem no plantel atualmente (ver infografia). Perante estes valores, coloca-se a questão: poderá uma equipa portuguesa continuar a aspirar a conquista de uma prova europeia ou este fosso está a matar a competitividade no futebol da ‘Velho Continente’? O Jornal Económico falou com o jornalista e comentador Rui Pedro Braz que traça três desafios aos grandes do futebol português.

Perante os muitos milhões de euros gastos pelos colossos europeus, o que sobra para as equipas portuguesas?

Aquilo que aconteceu esta temporada ao SL Benfica e ao FC Porto na Liga dos Campeões não deixa de ser sintomático e preocupante e é parte do que está a acontecer à competitividade entre as equipas portuguesas e os grandes da Europa. Isto aconteceu no passado, noutras circunstâncias, mas aconteceu: os ‘grandes’ de Portugal serem goleados por outras equipas europeias. O problema é se isto acontecer de forma mais sistemática, ou seja, se este desfasamento entre as forças que existem noutros campeonatos e a força do campeonato português passar a ser uma prática comum e não um ato isolado. Na última década e meia tivemos muitas equipas portuguesas a chegar a finais europeias, o que é demonstrativo de que Portugal tem capacidade. Primeiro, isso acontece cada vez mais na Liga Europa, a segunda competição europeia, e não na Liga dos Campeões; segundo: Portugal tem vindo a perder pontos, nos últimos anos, no ranking de ligas europeu.  Estivemos no top 5 e agora já estamos a sentir dificuldades para aguentar a sétima posição do ranking europeu, com os custos que isso tem na presença das equipas portuguesas na Europa.

Mas, acima de tudo, o desfasamento a nível financeiro mostra que algo está errado com a organização das competições europeias. Porquê? O fair-play financeiro é uma miragem para conter estes novos ricos do futebol que podem comprar os jogadores que querem quando querem, conforme querem. Chelsea, Manchester City, PSG, entre outros. Este ano, o PSG contratou Neymar por 222 milhões e no final da época, para contornar o fair-play financeiro, vai contratar Mbappé por 180 milhões. Há muitas formas de contornar o fair-play financeiro e as cláusulas de compra obrigatória no final da temporada são um caminho muito utilizado. Há uma série de medidas que têm de ser adotadas pela UEFA para que haja um maior equilíbrio.

Poderemos estar a caminho de uma Liga Europeia?

O caminho que se está a trilhar vai desembocar, inevitavelmente, numa superliga europeia: Ou seja, as ligas domésticas vão perder importância, vão perder dimensão e vai haver uma espécie de NBA do futebol na Europa. Haverá eventualmente promoções e despromoções de divisão entre a Liga dos Campeões e a Liga Europa e quando isso acontecer, as ligas domesticas vão perder dimensão, pelo menos no que diz respeito à dimensão dos clubes grandes.

Um modelo próximo da Liga das nações?

Poderá ser muito próximo disso. Implicará que SL Benfica, Sporting CP e FC Porto, eventualmente, possam marcar presença na SuperLiga Europeia e participem na Liga Portuguesa com equipas B ou segundas linhas, com segundas escolhas. A Liga Portuguesa irá perder mediatismo, os melhores jogadores vão estar na Champions League, a disputar essas competições europeias.  Equipas como o Sporting de Braga, o Vitória de Guimarães, o Belenenses, o Marítimo, o Boavista poderão eventualmente ganhar competitividade e quem sabe, lutar pelo título, o que não deixará de ser interessante.

Mas isto é tudo no campo das hipóteses. Para já, temos que lidar com outra realidade: há um desfasamento brutal em termos financeiros e a questão é ‘como é que, nesta realidade, os clubes podem sobreviver?’ Os clubes não podem estar à espera que o contexto mude, que evolua para essa tal liga europeia.

O segredo é apostar cada vez mais na formação, como o Sporting CP faz há muito anos e continua a fazer; como o SL Benfica tem vindo a fazer ao longo dos últimos quinze anos;  como o FC Porto tem vindo a fazer nos últimos anos. O jogador português é talentoso por natureza, tem que ser trabalhado e bem formado e o ‘produto’ português tem muito valor lá fora. Não é por acaso que existem propostas de muitos milhões por jogadores que, por vezes, ainda nem chegaram a uma equipa principal.

Mas atenção: nem todos os anos é possível ter jovens da formação a entrar directamente no plantel principal. Como é que se pode arranjar uma solução que permita essa aposta sem perder competitividade? Um scouting extremamente competente: especialistas, olheiros, na América Latina, no Brasil, nos países de Leste. Em Portugal, nos escalões inferiores. Devem perceber onde é que está o talento antes dos grandes europeus. Os clubes portugueses, não tendo dinheiro, têm de ir em busca desse engenho e conseguir detetar o talento muito mais cedo.

Temos a vantagem da Liga Portuguesa ser vista como uma catapulta para outras Ligas mais fortes?

Exatamente. E isso acontece muito no que diz respeito aos jogadores brasileiros por razões óbvias. Toda a América Latina ainda olha para a Liga Portuguesa como uma porta de entrada, mas é preciso apanhar os grandes talentos numa fase precoce da sua evolução, antes de se valorizarem para patamares de muitos milhões de euros, onde os clubes portugueses não conseguem chegar. O segredo é esse.

Outra saída é encontrar novas formas de financiamento. Tentar ir ao encontro de investidores estrangeiros que estejam interessados em depositar a sua confiança e o seu investimento em Portugal, como aconteceu com a Fly Emirates no patrocínio da camisola do SL Benfica.

Para isso, é importante que os dirigentes tenham noção que é importante “vender o produto”, mas têm que saber promover o produto ‘futebol nacional’. A Liga deveria fazer mais, embora nos últimos tempos tenha melhorado significativamente. Onde está a falha mais gritante é nos clubes: os clubes têm que perceber que, enquanto não se unirem para aquele que é um bem comum, a ‘galinha dos ovos de ouro’, o core business destes clubes, que é o futebol de 11 – enquanto houver estas guerras, estes conflitos, um produto como o futebol arrisca-se a perder cada vez mais credibilidade, prestigio e é mais difícil atrair investimento estrangeiro.




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