Acabo de ser despedido

Segundo alguns relatos, foi assim que James Comey reagiu, presumindo que se tratava de uma simples partida.

O diretor do FBI estava numa reunião em Los Angeles quando viu a notícia do seu despedimento na televisão e a reação inicial mostrou que até achou uma certa piada à partida. Mas membros da sua equipa apressaram-se a informar o chefe que não era uma partida, que uma carta do presidente tinha acabado de chegar à sede do FBI em Washington a confirmar o despedimento.

Piada não tem nenhuma. A decisão de Donald Trump provocou duras críticas, de democratas e republicanos, com algumas a fazerem um paralelo com as táticas sombrias de Richard Nixon quando tentava abafar o escândalo Watergate. Já lá vamos, mas antes é preciso tentar explicar as explicações de Trump.

Aos jornalistas, o presidente disse só que Comey não estava a fazer um bom trabalho. Mas no seu território favorito – o Twitter – acrescentou que o diretor do FBI tinha perdido a confiança de todos em Washington, republicanos e democratas, recordando ainda que estes últimos estiveram meses a criticar e a pedir a demissão de Comey, portanto não podem queixar-se agora.

O despedimento foi abrupto, mas a posição de Comey estava há meses sob escrutínio devido a duas investigações. A primeira era sobre o uso de um servidor privado de email por Hillary Clinton quando chefiava a diplomacia dos EUA. Comey enfureceu Trump ao dizer em julho que não havia motivos para um processo jurídico.

Depois, a 10 dias das presidenciais de 8 de novembro, afirmou que ia reabrir a investigação, antes de voltar a mudar de posição dois dias antes das eleições para dizer que afinal não havia motivos para isso. Em poucos dias enfureceu os dois candidatos – Clinton acusou Comey de causar a derrota, e Trump ficou irritado por a democrata ter ficado impune.

Ainda assim, após chegar à Casa Branca, Trump manteve Comey no cargo. O que aconteceu, então, em menos de quatro meses para o diretor do FMI passar a ser persona non grata?

A carta de Trump a informar Comey sobre o despedimento era curta, mas tinha em anexo uma nota do procurador-geral adjunto, Rod Rosenstein, na qual explicava que a condução da investigação sobre os emails de Clinton teve erros, tornando a posição de Comey indefensável.

Essa explicação foi vista como implausível, levando democratas e republicanos a apontar para uma causa mais preocupante: a outra investigação. Comey anunciou em março que estava a investigar a alegada interferência do governo russo nas eleições e uma eventual coordenação desses esforços com a campanha de Trump.

Na carta de despedimento, Trump agradeceu a Comey por este ter informado, três vezes, que o próprio presidente não está a ser investigado, apesar de não haver registo público que o diretor do FBI alguma vez tenha dito isso.

É este o ponto crucial: a noção que Trump terá estado em conluio com Putin para chegar à Casa Branca não desaparece e é um dos fatores que vai influenciar a percepção que os americanos e o mundo têm do presidente americano.

Este foi o segundo despedimento de um diretor nos 108 anos de existência dos Feds. Em 1993, Bill Clinton despediu William Sessions pelo uso de meios e fundos da agência para benefício pessoal, mas a decisão não foi contestada.

O paralelo mais relevante, e sombrio, é com o Massacre da Noite de Sábado, quando, em 1973, Richard Nixon mandou despedir Archibald Cox, o procurador que liderava a investigação Watergate. Todos sabemos como acabou essa história…

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