A vitória de Pirro

O desenlace das eleições presidenciais em França deu descanso aos mercados financeiros e a nova coqueluche Macron aos europeístas mais fervorosos.

Mas não podemos esquecer o legado alarmante desta votação: com 10,6 milhões de votos, a extrema-direita conseguiu duplicar o resultado que havia conseguido há 15 anos, quando Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine, também conseguiu passar à segunda volta das eleições presidenciais.

Nestas eleições, houve regiões em França onde o discurso xenófobo teve tal implantação que, mesmo com a campanha reduzida a dois candidatos na segunda volta, a candidata que se apresentava contra a imigração e contra a Europa saiu vencedora no embate direto com o candidato pró-Bruxelas.

No debate que a Europa tem de fazer sobre que rumo quer tomar, seria bom não esquecer essas zonas desindustrializadas e deixadas para trás pela globalização, que tantos votos deram a Le Pen e que institucionalizaram a Frente Nacional como um partido cujas propostas têm de ser debatidas no espaço público. O que seria inimaginável há alguns anos aconteceu nestas eleições: um candidato democrata foi a um debate televisivo confrontar ideias com alguém que se opõe a alguns dos mais básicos princípios civilizacionais.

O confronto ideológico com a extrema-direita até pode ser apreciado por quem assume em pleno o pensamento voltariano “Discordo do que dizes mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo”. Mas há momentos em que é mais adequado recorrer a um outro princípio filosófico: os bois pegam-se pelos cornos. O mérito maior de Emmanuel Macron nesta campanha acabou por ser, no histórico debate televisivo contra Le Pen, mostrar com frontalidade e assertividade como o discurso da extrema-direita é uma viagem a um passado negro que deve ficar enterrado.

Pena é que Macron não muitos mais méritos, pelo menos para já. As propostas do candidato independente têm mais para causar apreensão do que entusiasmo. Há um primeiro conjunto de causas do novo Presidente que fazem todo o sentido, como um programa de investimentos em formação, energias renováveis e infraestruturas. Há depois aquelas que fazem sentido mas que dependem de negociação política na Europa – caso de um orçamento comunitário mais pujante e mais integração orçamental na zona euro. Enfrentarão a já habitual resistência dos países nórdicos e têm uma exequibilidade reduzida. Com eleições na Alemanha em setembro e Merkel na calha para continuar a liderar a Alemanha, a probabilidade de a entrada de leão de Macron resvalar para um pífio fim como o de Hollande não é despicienda.

Há depois um conjunto de propostas que variam entre o populismo light e a demagogia sebastianista, como a necessidade de regenerar o sistema político ou diminuir o número de deputados. E por fim as medidas que, sob a capa de modernização da economia francesa, vão dar ao mesmo caminho que faz com que cada vez mais cidadãos tenham reticências face ao projeto europeu: a redução da despesa pública e da presença do Estado na economia, a liberalização e a crença cega nas forças do mercado, com redução constante dos direitos sociais.

Uma entrevista a um dos estrategas políticos da campanha de Macron, Luis Costa Bonino, é reveladora: o então candidato iria formar um amplo governo “de centro, esquerda e direita liberal”. O novo Presidente é tudo e o seu contrário, o que não augura nada de bom. É feito com a mesma matéria elástica da terceira via socialista que, aliada à direita mais liberal, permitiu que a Europa se tornasse uma região em crise e sem rumo, nem eficiente nem equitativa. Um “nem nem” de proporções continentais.



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