A travessia do deserto do PSD

Com o aparelho passista congregado no apoio a Santana, Rio terá óbvias dificuldades em ganhar umas eleições diretas.

Fazer previsões políticas relativas a um partido com um historial de disputas tão acesas como o PSD é um exercício com elevada probabilidade de erro. Mas, se tivesse de apostar agora no resultado das diretas a realizar em janeiro, seria na vitória de Santana Lopes.

O antigo primeiro-ministro não é particularmente galvanizante, mas há um evidente antagonismo do aparelho laranja face a Rui Rio. Passos pode ter deixado o partido com sondagens confrangedoras e uma derrota pesada nas autárquicas, mas deixa a generalidade das concelhias e das distritais em mãos de confiança, que não se revêem em Rui Rio e no tacticismo que revelou quando o partido ia caindo em desgraça.

Com o aparelho passista congregado no apoio a Santana, Rio terá óbvias dificuldades em ganhar umas eleições diretas. Mas é revelador do estado do partido que o nome mais bem colocado para ganhar as diretas seja o primeiro-ministro do Governo mais breve e disparatado da história recente do país.

Parece certo que o PSD se prepara para uma agonizante travessia do deserto, e só quando se vislumbrar uma oportunidade de poder haverá mais nomes a disputar a liderança, mas estas eleições mostram também um fosso identitário no PSD.

De uma maneira muito própria, o partido viveu a transformação da social-democracia comum a muitos partidos europeus – e que agora está a ser penalizada nas urnas. A ala mais ao centro, em que se movimentam Ferreira Leite, Silva Peneda e Marcelo Rebelo de Sousa, está envelhecida e perdeu peso no partido, face ao espírito liberal que as novas gerações trouxeram.

Esta mutação aconteceu noutros partidos socialistas e social-democratas europeus, mas a particularidade do PSD é que a transformação se fez com uma nova geração de políticos em que, salvo honrosas exceções, é patente o défice de capacidade política e intelectual. Os quadros que saem da JSD são de uma pobreza extrema e quem poderia dar mais consistência a uma visão liberal do partido está a trabalhar em bancos, fundos de investimentos e escritórios de advogados, a fazer o que um bom liberal gosta de fazer: enriquecer. Talvez seja esta a explicação para as dificuldades do PSD em gerar políticos novos geração que possam posicionar-se como sucessores na liderança, a prazo.

Estes problemas estruturais do partido poderiam ser disfarçados se surgisse alguém com o mínimo de carisma, ainda que mal preparado. Mas nem isso se vislumbra.



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