A sanha contra turistas

As propostas de regulação do alojamento local estão a gerar uma discussão apaixonada sobre o impacto do turismo nos centros das cidades.

Independentemente dos méritos ou deméritos da iniciativa mais polémica – atribuir aos condomínios a decisão de autorizar os alojamentos locais –, é desconcertante que o necessário debate sobre como regular os efeitos mais intrusivos deste regime turístico resvale, demasiadas vezes, para um quase-ódio aos turistas. Para esta nova vaga de nacionalismo urbano, há uma horda de estrangeiros malfeitores a roubar Lisboa aos lisboetas.

Convém lembrar o que era o centro da cidade há duas décadas, quando os turistas se contavam pelos dedos. Na Baixa não vivia ninguém. Os prédios estavam vazios, decadentes. Tinham mais “ocupas” toxicodependentes do que inquilinos. As ruas estavam desertas. Quando andava na faculdade, nos anos 90, numa das muitas idas ao Bairro Alto – certamente para celebrar a intensa produção nas aulas dessa semana – fui assaltado em frente ao que são hoje os Armazéns do Chiado, antes da meia-noite. Eu e os dois simpáticos larápios éramos as únicas pessoas na rua. É dessa cidade fantasma que as pessoas sentem falta? É que foram os turistas a dar um contributo decisivo para que fossem recuperados muitos prédios no Chiado e na Baixa, que são hoje zonas plenas de vitalidade, com lojas, restaurantes, esplanadas, bares e hotéis. E gente, muita gente. Gente como se vê nas zonas históricas de Amsterdão ou Paris.

Para conseguir -se uma recuperação de património da magnitude que houve nas últimas décadas, haveria uma alternativa realista? Poderia ter sido feita uma expropriação generalizada dos edifícios cadavéricos no Chiado e na Baixa. O Governo ou a Câmara de Lisboa, mesmo que optassem por nacionalizações agressivas sem pagar indemnizações aos proprietários, teriam depois de financiar uma gigantesca intervenção urbana em toda aquela zona, para depois vender as casas a baixo preço ou cedê-las a rendas controladas a milhares de famílias. No final, chegava o Pai Natal e iam todos juntos ao circo.

Mais do que condenar de forma algo primária a vaga de turistas, seria mais valioso reflectir sobre formas de capitalizar o que ela traz de bom e de minimizar o que ela traz de mau. É urgente estabelecer mecanismos eficazes para garantir que uma quota mínima de oferta de espaços habitacionais na cidade, a preços controlados. É urgente repensar e reforçar o sistema de transportes. Mas regressar a uma cidade zombie não é alternativa.



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