Há balcões que, pela sua ineficácia, não fazem sentido. Há que substituí-los por serviços de novo tipo, mais eficientes e ágeis, e usar as novas tecnologias para responder aos interesses das populações.

A Caixa Geral de Depósitos precisa de se reorganizar na base da racionalidade económica, mas sem perder de vista e dando resposta à sua missão de banco público. Neste contexto, a sua acção tem de ser muito criativa e exigente. Tem de ir além de um banco privado na prestação de serviço às populações, sem com isso incorrer em custos adicionais que prejudiquem a sua operacionalidade e os resultados. Tem de cumprir as metas.

Será possível conjugar estas duas vertentes – a económica e a social? Rebobinando a cassete Caixa Geral de Depósitos (CGD) no período do actual Governo, há três fases distintas de sucesso/insucesso bem diferenciadas.

 

  1. O Governo de António Costa entrou bem na Caixa

De Bruxelas esperavam-se muitos anticorpos, políticos e técnicos, contra a proposta de recapitalização da Caixa, através de financiamento público, porque ia contra a orientação dominante na União e, por outro lado, um Governo de incidência parlamentar à esquerda também não encaixava lá muito bem nos cânones comunitários.

A nível do país, a direita também apostava no insucesso desta linha de orientação. Aliás, apostava em que tudo corresse mal. O objectivo era apear o Governo.

A arma mais adequada para o Governo português tentar ultrapassar estes escolhos era munir-se de um trabalho técnico bem fundamentado. E, na realidade, esse trabalho foi feito. Explorou a legislação comunitária para fundamentar a sua intenção de, na qualidade do Estado como único accionista da Caixa, poder avançar para o aumento de capital com dinheiro próprio. Para isso, entre muitas outras condições, do projecto de recapitalização tinha de constar o compromisso de cumprir as regras a que qualquer banco estava sujeito. Com a apresentação de um projecto deste tipo, o Governo marca pontos nestas frentes de batalha.

As instituições comunitárias, DG-Concorrência e BCE viram-se obrigadas a fazer cedências, apesar de alguns choques fortes de percurso. No entanto, as instituições comunitárias ficaram à espreita de oportunidades para criar dificuldades e criaram-nas ao longo da fase negocial através da exigência de propostas alternativas à recapitalização e, numa fase posterior, indo ao ridículo de exigir frequência de formação adicional a alguns dos elementos nomeados para a primeira Administração da Caixa.

Quem não se lembra dos “cursos de reciclagem” no INSEAD – França que o BCE teve o desplante de exigir a alguns indigitados da equipa de António Domingues?! Uma intromissão indigna nas decisões do País e para todos os efeitos intolerável.

Um dia destes alguma instituição comunitária ainda tem a veleidade de propôr “cursos de reciclagem” para primeiros-ministros da Europa do Sul! Com esta Europa, já faltou menos. Dois primeiros-ministros já foram impostos a países do sul. Mas, depois do sucesso inicial que a direita portuguesa e alguns meios europeus dificilmente digeriram, entrou-se na segunda fase.

  1. Nomeação da Administração António Domingos

A nomeação desta Administração da CGD pelo Governo português não passou de um filme de ficção ou, pior ainda, de um filme de terror. Todo o país ficou cansado das peripécias sobre a troca de emails da declaração de rendimentos, e por aí além. Que tenha havido estes equívocos dá-se de barato. Foi mau. Mas o tempo que o filme esteve no ecrã é que não tem qualquer justificação.

Ficaram por entender as peias de Centeno. O Governo, ou melhor dito, a equipa das Finanças deu aqui alguns tiros no pé. E ainda continua a comissão de inquérito na AR, a que felizmente já ninguém liga. Esta insistência da direita política não passa também de um grande tiro no pé.

Felizmente está ultrapassada esta fase. Por vezes, houve a sensação de que tudo se iria desmoronar, pondo em causa a conquista que foi a recapitalização pública da Caixa, avalizada pela UE.

  1. A Administração Paulo Macedo

Depois do sucesso inicial que a direita portuguesa e alguns meios europeus dificilmente digeriram e do rotundo falhanço da administração António Domingos por mal-entendidos contratuais, supremamente mal geridos, chega a administração Paulo Macedo, um homem tendencialmente de direita, consensual e com experiência de banca.

Parecia estar a entrar bem. Mas o processo de revitalização da Caixa – o fecho de balcões e os despedimentos – está a fazer abalar um tanto quanto a sua credibilidade. Mais o fecho de balcões que os despedimentos.

Há que reestruturar a Caixa, como aliás consta do projecto apresentado em Bruxelas, mas de forma muito criativa e com muita clareza. Desde logo deviam ser conhecidas as grandes linhas que norteiam o fecho de balcões ao longo do país, e sobre isso pouco se disse. Essas linhas gerais deviam conter elementos de natureza económica mas também de natureza social. Depois havia a equacionar os efeitos nos interesses da população do fecho de um balcão, tendo em vista reduzir ao mínimo os impactos negativos.

É muito diferente fechar um balcão numa cidade, numa zona universitária por exemplo, ou numa terra de província, onde o próximo balcão ou agência fica a uma distância de vários quilómetros, e muitos têm sido os exemplos trazidos a público pela comunicação social em que se constata esta situação. Por outro lado, o fecho implica sempre a equação de alternativas e aqui, no meu entender, está a grande falha.

Dá a sensação que a administração Paulo Macedo teve em pouca conta certos aspectos. Olhou para a Caixa como se de um banco qualquer se tratasse. Predominou o aspecto de rentabilidade sem atender aos importantes serviços à população de que a Caixa tem tradição.

A reestruturação necessariamente obriga a desinvestir neste ou noutro balcão. Mas cada caso e sobretudo os do anterior deveriam ter sido bem analisados, com pensamento em alternativas. Há muitas hipóteses de salvaguardar a prestação de serviços às populações mesmo com o fecho de balcões.

Há a continuidade da prestação de serviços em parceria com as câmaras, juntas de freguesia, com privados, com meios próprios, uma carinha apetrechada para prestar serviços aos clientes da Caixa. Dias certos para pagar pensões, para aceitar depósitos, etc. Eventualmente esta forma, se bem estruturada, até pode ser bem mais eficiente que um simples balcão aberto nada dinâmico no atendimento e nas sugestões.

Há balcões que, pela sua ineficácia, não fazem sentido. Há que fechá-los e substituir por serviços de novo tipo, mais eficientes e ágeis. Deste modo, a reestruturação até se tornará mais moderna e mais próxima das pessoas. Hoje em dia há que usar as novas tecnologias para responder aos interesses das populações. Eis um campo de ensaio de grande inovação.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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