Mercado petrolífero: à procura de um equilíbrio que tem sido adiado

Os preços não resistiram e caíram para abaixo da linha vermelha dos 50 dólares, agitando um mercado que esperava um ano de estabilidade.

Inventários, cortes de produção e petróleo de xisto têm marcado os últimos meses, mas as atenções estão a virar-se cada vez mais para o outro lado do mercado: a evolução da procura.

O preço do Brent negociado em Londres acumula já um tombo próximo de 10% desde o início do ano, tendo tocado um valor mínimo desta semana nos 48,39 dólares por barril. Já o Crude WTI de Nova Iorque caiu 11% em 2017 e desceu até aos 45,53 dólares na passada terça-feira. A grande preocupação do mercado tem sido o equilíbrio, tentando corrigir o excesso de oferta para provocar um aumento gradual dos preços ao longo do ano.

No entanto, o ano já conta com quatro meses e meio e os resultados não têm correspondido às expetativas. Em parte, porque as projeções sobre a procura global por petróleo se têm revelado pouco realistas.

“O foco neste momento está no aumento total de procura porque há um risco de as expetativas terem de ser revistas em baixa, o que vai pressionar os produtores”, explica o diretor de matérias-primas e dívida nos mercados emergentes da Schroeders, Matthew Michael.

“Está toda a gente muito focada na produção nos EUA e na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mas não tanto na procura, que pode diminuir. Tudo pode acontecer”, afirma. “A longo prazo, temos de considerar o ritmo de crescimento da procura nos diferentes países. Esperamos que o consumo continue a subir, mas o aumento da eficiência no consumo de combustíveis é algo a que temos de estar atentos. Por outro lado, continuamos viciados em combustíveis e não se espera que isso se altere”.

Em abril, a Agência Internacional de Energia (AIE) reviu em baixa a estimativa do aumento anual do consumo, em 100 mil barris por dia para 1,3 milhões de barris por dia, prevendo agora um total de 97,9 milhões de barris por dia. No entanto, no primeiro trimestre do ano, a subida na procura diária não foi além de 800 mil barris, arrastada por uma quebra nos países da OCDE. A diferença está a criar pressão nos produtores, que monitorizam os movimentos de três países em particular.

Crescimento lento

A revisão em baixa da AIE tem principalmente a ver com as preocupações da agência em relação à desaceleração no crescimento económico na Índia, Rússia e na China.

Apenas na Índia, espera-se agora um consumo diário em 11% menor do que na anterior estimativa, publicada em março. “O mercado petrolífero busca crescimento [da procura], mas não há”, disse o responsável para a Ásia do Grupo Vitol, o maior trader independente de petróleo do mundo, em entrevista à Bloomberg.

“O crescimento está lá, mas não é suficientemente rápido”, afirmou Kho Hui Meng, que alerta que as refinarias estão a manter os níveis de importações de petróleo face ao ano passado e o aumento do consumo não está a corresponder ao ritmo esperado.

Apesar disso, Kho monstra-se otimista, dizendo que espera “que o crescimento da procura por petróleo na China coincida com a do ano passado, graças a um setor de transporte robusto, enquanto o crescimento económico anual esperado da Índia de mais de 7% continuará a impulsionar o crescimento saudável”.

As previsões vindas da Arábia Saudita também são animadoras, com o ministro da Energia do país, Khalid Al-Falih, a estimar que o consumo global este ano cresça ao mesmo ritmo do que no ano passado.

Fator xisto

Matthew Michael, da Schroeders, lembra, no entanto, que apesar da importância da procura, a oferta continua a ser o maior condutor do mercado petrolífero. O analista Carlos Jesus, do CaixaBI concorda que as principais variáveis no mercado são, neste momento, o corte de produção da OPEP e o aumento tanto dos inventários como da produção do petróleo de xisto nos EUA.

Depois de dois anos de discórdia e com os preços do petróleo mais baixos em 12 anos, a OPEP deu um passo histórico em novembro do ano passado e assinou um acordo com outros 11 países produtores para reduzir a oferta.

O principal objetivo era diminuir o excedente face à procura mundial e causar uma subida gradual dos preços. O mercado animou-se com o anúncio e o valor da matéria-prima disparou, abandonando os 30 dólares e subindo para próximo dos 50 dólares por barril.

Mas as contas da OPEP não consideraram um fator importante: os EUA. O país ficou de fora do acordo, mas as políticas energéticas de incentivo de Donald Trump e a rentabilidade do petróleo de xisto (devido à subida dos preços), travaram o entusiasmo.

“Os inventários estão longe de onde os líderes da OPEP pensaram que estariam com o atual acordo de corte de produção. Os dados mais fiáveis e atualizados sobre os stocks de petróleo bruto vêm dos Estados Unidos, com os inventários globais, excluindo a Reserva Estratégica de Petróleo, a subir quase 50 milhões de barris desde o início do ano até o final de abril (+10%)”, escreve o analista do CaixaBI num relatório mensal sobre o mercado.

Mais cortes?

No próximo dia 25 de maio, a OPEP vai ter oportunidade de repensar a estratégia e poderá prolongar o prazo do acordo, que termina atualmente em junho, ou mesmo aprofundar os cortes. No entanto, as perspetivas não são as mais favoráveis já que as reações ao acordo em vigor neste momento acabaram por ser limitadas.

“O mercado continua sem curso enquanto não consegue decidir se a OPEP continua a ser relevante no estabelecimento dos preços”, explica Carlos Jesus.
“A grande questão mantém-se: está o mercado realmente a voltar a um equilíbrio ou são necessários mais cortes dos produtores membros e não-membros da OPEP?”, questiona Carlos Jesus, do CaixaBI. Matthew Michael responde que não conhece “ninguém que faça a mínima ideia do que vai acontecer”.

No entanto, o analista da Schroeders explica que, tendo em conta os dados atuais, o petróleo de xisto não deverá continuar a ser rentável por muito mais tempo. “É um fenómeno”, afirma, lembrando que representa apenas cinco milhões de barris num universo total de 96 milhões de barris em produção global diária. “A nossa expetativa é que o petróleo não tenha uma performance muito positiva pelo menos no próximo mês. Pode-se tornar volátil novamente devido à natureza do mercado, mas assim que nos aproximarmos do final do ano, os preços deverão subir novamente”.



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