A melhor época para nos afirmarmos publicamente como mulheres

O MeToo tornou-se um movimento que excedeu as expetativas de todos e começou a derrubar muros em muitas outras áreas. Sim, há alguma hipocrisia, aproveitamento mediático e vingança, mas tudo isso perde-se na convicção de que esta cultura de impunidade não pode mais ser tolerada.

1. O feminismo ganha novo impulso
2. A coragem de denunciar
3. Uma luta que passa pelo diálogo com os homens

 

1. O feminismo ganha novo impulso

A 23 de janeiro, começou a circular na internet a notícia da morte da escritora Ursula K. Le Guin. A primeira vez que li a notícia fechei os olhos por alguns segundos, como se esse gesto desmentisse a morte de um dos meus ídolos literários. Le Guin partiu deste mundo após uma vida cheia de 88 anos, deixando para trás um conjunto de obras vanguardistas que se tornaram clássicos modernos, mas isso não ajudava a suavizar a enorme perda da sua voz lúcida nestes tempos de convulsão.

No dia seguinte, não faltaram obituários e grande parte do jornalismo cultural foi rápido a reduzir a sua obra à fantasia para jovens adultos com dragões e feiticeiros, reconhecendo a importância da sua obra de ficção científica nas décadas de 60 e 70.

Não acreditem neles. A sua obra de fantasia é tão complexa quanto tudo o resto que escreveu. Na série Terramar (Earthsea) narra as aventuras do feiticeiro Ged, desde a juventude à velhice, e de como se tornou o maior Arquimago de todos os tempos. Mas subjacente a essa fachada, reside uma história de aprendizagem dolorosa e de crescimento, de erros terríveis cometidos por orgulho e arrogância e que deixam cicatrizes para a vida.

No segundo livro da série, Os Túmulos de Atuan, a autora fez algo maravilhoso e decidiu subverter os estereótipos do género – tenham em mente que o livro foi publicado em 1971. Uma jovem sacerdotisa de nome Tenar foi escolhida para servir velhos deuses nos túmulos de Atuan. Tenar passou toda a sua vida no subterrâneo labiríntico, sem questionar a sociedade patriarcal dominante que a confinou à solidão nas trevas.

A chegada de um jovem feiticeiro, Ged, que se infiltra sorrateiramente nos seus domínios, é suficiente para virar o seu mundo do avesso e pô-la a questionar a sua fé. “Tudo o que eu conheço é a escuridão, a noite no subterrâneo. É tudo o que realmente importa. É tudo o que importa conhecer, no fim. O silêncio e as trevas”, responde Tenar ao feiticeiro. No fim, Tenar tem de escolher entre  permanecer nos túmulos ou rebelar-se contra tudo o que lhe ensinaram e abandonar as trevas em direção à luz, encorajada pelas palavras de um feiticeiro que acaba de conhecer.

A história de Tenar poderia muito bem simbolizar as histórias de muitas mulheres. Não por acaso Le Guin foi considerada precursora do feminismo e a sua escrita deu grande força à segunda vaga feminista que começara no início da década de 60. Se a primeira vaga feminista iniciada pelas sufragistas lutou pelo direito ao voto e à propriedade, a segunda vaga agarrou o touro pelos cornos e exigiu o direito ao controlo reprodutivo, o acesso igualitário à educação, o fim da cultura de assédio e violação, uma maior proteção legal às vítimas, e também lutou por mais igualdade de direitos no local de trabalho, pondo em cheque a misoginia e o sexismo dominantes.

O movimento abriu caminho à emancipação feminina e redefiniu o papel da mulher na sociedade, destruindo os mitos deliberadamente criados pelo patriarcado de uma mulher confinada à esfera doméstica no pós-guerra. Mas a luta estava muito longe de terminar. Códigos sociais e culturais tão enraizados na comunidade não poderiam ser tão simplesmente postos de lado. E embora uma parte importante do caminho tivesse sido construída pela segunda vaga, o sistema continuava a alimentar o desrespeito, a opressão e a desigualdade.

Foi preciso chegarmos à década de 90 e à primeira década de 2000 para o feminismo ganhar novo impulso, evoluindo para questões de diversidade e passando a incorporar reflexões sobre classe, identidade sexual, raça e género. Novas formas de pensar e fazer feminismo começaram a ganhar corpo e, apesar de todas as disputas e divergências de perspetiva (e elas existem entre feministas), diria que se registou um progresso considerável nas questões de igualdade de género.

Foi isso que fomos levados a pensar. Mas o facto de defendermos uma coisa, não quer dizer que ela seja respeitada ou sequer implementada. Numa sociedade em que ainda é muito importante manter as aparências, ainda nos silenciamos perante o que se passa por trás das fachadas. E para ilustrar isso, nada melhor do que abrirmos um pouco as cortinas para o meio artístico, glamoroso e milionário do cinema norte-americano.

 

2. A coragem de denunciar

A cultura tóxica da celebridade sempre ocultou monstros. Pior do que isso, os monstros saíam impunes porque detinham o estatuto e o poder para criar ou destruir carreiras numa indústria altamente competitiva. De longe, olhamos para as atrizes que são colocadas num pedestal – belas, felizes na aparência e obscenamente ricas – e julgamos, na nossa ingenuidade, que nenhum mal as pode tocar porque, afinal, elas são ricas e o dinheiro pode comprar toda a segurança do mundo. Algumas delas serviram de musas a realizadores famosos, o que pode ser uma coisa muito perigosa, como sublinha Suzanne Moore no seu recente artigo sobre ‘musas’ no The Guardian. Uma musa é frequentemente abusada pelo homem que ela inspira e exemplos disso não faltaram na História.

Quando começaram a surgir as primeiras denúncias em torno de Harvey Weinstein, passámos a conhecer a história de mulheres que viram a sua carreira chegar a um fim abrupto porque não consentiram servir de objeto sexual. Outros relatos partiram também de atrizes que foram alvo de humilhação, assédio e violência psicológica mas que conseguiram permanecer na indústria, mantendo-se em silêncio.

Tem havido alguma discussão (tensa) sobre a cumplicidade destas mulheres para com os seus agressores sexuais e a hipocrisia de virem limpar a sua imagem, pondo-se no lugar de vítimas. Ora, não será também o silenciamento forçado parte integrante da manipulação do agressor? Não será uma extensão das suas táticas de bullying? Separar as “verdadeiras” vítimas das “falsas” vítimas é um exercício fútil que se desvia daquilo que deve ser o alvo: os homens que não olharam a meios para atingir os seus fins de opressão, humilhação e subjugação sexual.

Se, durante muito tempo, a mulher que tinha coragem para denunciar era acusada de mentir, nos últimos meses a situação parece ter mudado. O que começou por ser uma denúncia contra um predador sexual, transformou-se em dezenas e depois centenas de denúncias contra muitos dos que tinham abusado do seu poder social e económico para subjugar mulheres. Tornou-se um movimento, uma vaga que excedeu as expetativas de todos e começou a derrubar muros em muitas outras áreas. Sim, há alguma hipocrisia, aproveitamento mediático e vingança, mas tudo isso perde-se num mar coletivo de convicção de que esta cultura de impunidade não pode mais ser tolerada.

Atrizes e outras celebridades decidiram, num ato de solidariedade, emprestar a sua voz a este movimento de denúncia, ajudando a dar a conhecer esta causa a mulheres de todo o mundo, e as consequências estão à vista: homens culpados estão a ser afastados da cadeira do poder. O sistema que os homens montaram e que lhes permitiu durante muito tempo sair impunes dos seus abusos, começou a desmoronar.

 

3. Uma luta que passa pelo diálogo com os homens

Perante os acontecimentos mais recentes, muito dificilmente os agressores sexuais persistirão nos seus atos, ainda que nem todos estejam de acordo com as motivações que estiveram na origem dos movimentos que ficaram conhecidos como #MeToo e #TimesUp. Receia-se muito pelos casos de acusações falsas, resiste-se demasiado à raiva que pulsa nas mulheres e criticam-se os extremos que inevitavelmente surgem nestes tempos de confrontação.

Contudo, as mudanças iniciadas pelo #MeToo integram-se num movimento muito mais amplo. Um ano após a marcha das mulheres contra a Presidência Trump, registou-se um número recorde de mulheres norte-americanas a concorrer a cargos políticos,  concretizando os ideais feministas de transformar a indignação em poder político. A nível judicial, exigem-se mudanças importantes que não assumam as vítimas de violência como culpadas. Nunca como hoje se batalhou tanto pela igualdade de género, e nunca como hoje se resistiu tanto a essa igualdade.

Ursula K. Le Guin sentia-se mais pessimista nestes últimos anos, tendo em conta a evolução dos acontecimentos políticos, mas o debate que ela ajudou a construir durante as últimas décadas floresceu como nunca. A luta quebrou finalmente as aparências e atreveu-se a ir mais longe, ao âmago da sociedade. Essa luta vai continuar e será transformadora nos próximos anos, mas só poderá ser bem-sucedida se estabelecer um diálogo que envolva os homens como parceiros e companheiros de luta.

Acredito que não há melhor época para ser uma mulher do que atualmente, e o sucesso da nossa afirmação pública como mulheres dependerá do quão longe podemos ir nesse diálogo. Não precisamos de permissão do patriarcado para existir, contudo queremos uma comunidade que compreenda a necessidade desta luta persistente contra o silenciamento e todas as formas de opressão. Só assim o caminho da emancipação poderá continuar a ser construído globalmente, com destino à igualdade.




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