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A campanha de casos e de discurso do ódio e da divisão polarizou os campos políticos. Mas, seja qual for o resultado eleitoral nos EUA, a batalha vai continuar.

É na “manhã seguinte” que se acertam contas com os erros da “noite anterior”. Raramente se cometem tais erros num estado de verdadeira inconsciência. Adia-se a decisão, oferece-se a indulgência, ignora-se a realidade de propósito. Mas a luz matinal é implacável – mesmo assobiando para o lado, não se foge para sempre às consequências.

Na política não é diferente. Recentemente, o Reino Unido acordou em choque com a saída da UE. Alguns dos incrédulos com o resultado votaram pelo Brexit – e queriam rever a decisão. Confiaram que o seu protesto em urna seria inconsequente graças ao bom senso dos restantes. A maioria não seria tola ao ponto de votar a favor…

Os britânicos ainda estão na sua “manhã seguinte”. Não há plano para a saída. Entre surtos de xenofobia e ameaças de divórcio escocês e irlandês, soubemos que os seus defensores públicos, como Boris Jonhson e Theresa May, eram opositores privados. O Brexit afastou Cameron da liderança dos Tories. A que custo?

A libra está instável e várias empresas migrarão para a zona euro. Os mercados tradicionais dos britânicos preferem a UE. E a tensão política cresce, com recusas da vinculação ao referendo e exigências de submissão do Parlamento à decisão popular. O desnorte permite algum humor. Os britânicos pedem uma vitória republicana para o mundo esquecer o seu embaraço.

Mas os Estados Unidos já perderam a visão de Trump como acidente menor. Em pânico, a elite republicana e o voto antecipado concentra-se em Hillary. A campanha de casos e de discurso do ódio e da divisão polarizou os campos políticos. Os republicanos prometem rejeitar Clinton na eleição ou com um ‘impeachment’. Entre os democratas dramatiza-se a vitória de Trump, descrito como um proto-fascista. Seja qual for o resultado eleitoral, a batalha vai continuar.

O fenómeno Trump é já a própria “manhã seguinte” dos americanos, após décadas de aumento das desigualdades. Os demagogos germinam melhor nas sociedades que sufocam as classes médias. Excluído da riqueza que se concentra na elite, o eleitorado busca bodes expiatórios. Opõe-se aos poderosos de Washington ou de Bruxelas, tidos como a mão visível de uma economia sem fronteiras que trabalha contra os seus empregos. Encontram conforto na ideia difusa de regresso ao passado, de fechamento de fronteiras e de hostilidade aos migrantes.

O centro-esquerda, integrado no sistema, não lhes dá a resposta ansiada. Em França, Le Pen avança nos velhos bastiões socialistas. O Brexit foi triunfante entre os votantes Labour. E a direita alimenta o ovo da serpente do populismo. O radicalismo do Tea Party abriu as portas à normalização de Trump, mas os seus apoiantes, passando a ser uma nova maioria, vaiaram Ted Cruz na convenção republicana.

Desde o início, a campanha foi marcada pelo tom anti-sistema. Bernie Sanders exigiu uma reforma no sistema económico e de Wall Street, após a gigantesca crise financeira. Trump agitou o repúdio ao sistema político. Quando Obama denuncia que ele não paga impostos, este devolve a acusação: não foi Washington a fazer estas leis? Obama não responde. Mas o eleitor vê a prova de como o sistema trabalha contra si.

Hillary é a imagem desse sistema e atrai a oposição de republicanos e dos liberais pró-Sanders. O velho senador tenta contrariar a tendência e mobilizar votos para consolidar a sua influência numa administração Clinton. Mesmo conseguindo, terá pela frente um Congresso dividido e a pressão contrária à sua agenda em ambos os partidos.

Na ressaca, com Clinton ou com Trump, o sistema tentará a assobiadela displicente, mesmo sabendo que as desigualdades já não se escondem com a aspirina do endividamento. Nesta América amarga, alguma coisa terá de mudar. Na “manhã seguinte” a tantas asneiras, a questão é saber quem vai sair a perder.