A lição de Vaso Cubrilovic

1. Vaso Cubrilovic era um jovem sérvio bósnio que em 1914 fazia parte da “Mão Negra”, a sociedade secreta que assassinou o arquiduque Francisco Fernando, no célebre atentado que deu origem à Primeira Guerra Mundial.

Por ser menor, Cubrilovic escapou à pena de morte, ao contrário do seu irmão Veljko e de outros conspiradores. Teve por isso a sorte de sobreviver. Nas décadas seguintes, Vaso enveredou por uma carreira académica, foi preso pelos nazis na Segunda Guerra e após a Libertação participou nos governos de Tito. Viveu até aos 93 anos e ainda assistiu ao início da desagregação da Jugoslávia. Já idoso, com a sabedoria que o tempo por vezes costuma trazer, renegou a ideologia pan-eslava da sua juventude e lamentou a morte de Francisco Fernando, que serviu de tiro de partida para os muitos conflitos que ensanguentaram o século XX. “Destruímos um mundo maravilhoso, que se perdeu para sempre devido à guerra que se seguiu”, disse.

A lição que Cubrilovic  aprendeu graças à sua longa vida foi que por vezes não damos o devido valor ao que temos e caímos na tentação de ir atrás de ideologias populistas e extremistas. O mundo que existia até aquela manhã de 28 de junho de 1914, em Sarajevo, estava longe de ser perfeito, mas existia paz, progresso e a crença de que os problemas da Humanidade seriam resolvidos pela ciência e pela razão. Havia também um crescente bem estar material, graças à industrialização e à primeira globalização. E embora a maior parte da Europa ainda fosse governada por monarquias autocráticas, a tendência ia no sentido da liberalização política e económica. Até que a Grande Guerra, que os políticos e os generais esperavam que fosse breve mas que se arrastou por quatro anos, acabou com esse “mundo maravilhoso” de que falava Cubrilovic: morreram pelo menos 15 milhões de pessoas, as economias europeias foram destruídas, o protecionismo regressou em força, os regimes constitucionais caíram no descrédito  e os totalitarismos ficaram com o caminho livre para tomarem o poder.

O que nos deve preocupar é que o mundo de 2017 tem muitas semelhanças com o de 1914. Temos um homem desequilibrado na Casa Branca, um ditador louco na Coreia do Norte, terroristas apocalípticos que querem destruir o mundo civilizado, uma rivalidade crescente e perigosa entre grandes potências e os populismos e extremismos de toda a ordem ganham força. Só um surdo não ouve o rufar dos tambores da guerra, como disse recentemente Henry Kissinger. O mundo está perigoso e cabe às pessoas sensatas fazerem o que estiver ao seu alcance para manter os ‘loucos’ na ordem.

2. Causou polémica a divulgação de um vídeo de uma alegada agressão sexual num autocarro no Porto, pelo “Correio da Manhã”. Por muitos argumentos e desculpas que se possam avançar em defesa do jornal, não há grandes dúvidas de que a divulgação do vídeo constitui um atropelo à deontologia da profissão. A notícia da agressão poderia ser avançada sem a divulgação das imagens, que desta forma terá servido apenas para tirar proveito da curiosidade mórbida dos leitores e assim aumentar as visitas ao site do jornal.

Mas discordo daqueles que falam daquele jornal como o expoente do mau jornalismo em Portugal. Goste-se ou não, com melhor ou pior jornalismo, o “Correio da Manhã” mostra o mundo como ele é: um sítio mal frequentado que, de vez em quando, tem alguns raios de sol. Ora tenho muito mais receio dos media que tentam mostrar o mundo como ele não é. Por exemplo, tenho muito mais receio dos jornalistas que, julgando-se já parte de uma determinada elite política, social e económica, lhe servem de caixa de ressonância, por gosto ou necessidade. E até com entusiasmo.

PS: Cubrilovic ficou também conhecido por ser autor, nos anos 30, de um plano de expulsão dos albaneses e de outras minorias que habitavam na Jugoslávia. Também neste caso acabaria por mudar de ideias com a idade, talvez por se ter apercebido de que o ressurgir do nacionalismo sérvio iria acabar por levar à destruição do país.

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