A foto da nova Turquia de Erdogan

A imagem é chocante. Numa galeria de arte, a lente capta o assassino em direto - na mão direita a arma do crime, na mão esquerda erguida, o dedo indicador aponta para cima e, na cara, uma expressão de pura raiva e glória a fazer lembrar um avançado que acaba de marcar um golo. No chão, a menos de um metro do homicida, a sua vítima, um homem baleado nas costas.

A foto tirada por Burhan Ozbilici meros segundos após Melvin Altintas ter assassinado o embaixador russo Andrei Karlov em Ancara é de dezembro, mas voltou às manchetes esta semana por vencer o World Press Photo. Uma seleção polémica, mas importante pois neste tempo de medos sobre Brexit/Trump/Frexit o mundo tem estado mais destatento aquilo que se passa na Turquia, um país com convulsões internas (que envolvem secularismo, islamismo e autoritarismo), um papel crucial numa região turbulenta e ligações tensas com a Rússia e os EUA.

O assassinato de Karlov reuniu várias dessas vertentes. Altintas, que usou o seu crachá de polícia para entrar na galeria, gritou “Allahu Akbar” (Deus é grande, em árabe) e “não se esqueçam de Aleppo, não se esqueçam da Síria”. O ato foi visto como vingança pelo envolvimento russo na guerra síria e que já tinha gerado protestos pelos islamistas turcos. O presidente turco Recep Erdogan disse que o assassinato visava perturbar as relações com a Rússia, que já estavam tensas após a Turquia ter abatido um avião russo em 2015. Erdogan pediu desculpa a Putin pelo incidente do avião e os dois países já estão, em parceria, há um mês a bombardear o Daesh na Síria. Mas a relação continua tensa e na semana passada já houve um incidente com acusações mútuas sobre quem errou num bombardeamento russo que matou soldados turcos.

A relação de Erdogan com Trump também vai ser complexa. O presidente turco tem evitado falar sobre a islamofobia que Trump mostrou na campanha e nas medidas para banir a entrada de cidadãos de sete países muçulmanos. A estratégia de Erdogan é de convencer Trump a abandonar o plano de Obama de apoiar os curdos sírios no combate ao Daesh e alinhar com as tropas turcas para esse efeito. Além disso, quer persuadir Trump a extraditar Fethullah Gulen, um teólogo turco acusado de planear o golpe de estado falhado de julho de 2016.

Um conselheiro de Erdogan frisou este mês que a Turquia vê um “novo começo, uma nova abertura” com Trump. Na campanha, Trump elogiou a forma como o presidente turco lidou com a tentativa de golpe, recusando criticar as detenções e despedimentos, a purga nos tribunais, o silenciar dos media e a interferência na política monetária. E isto leva-nos ao ponto crucial – o populismo e autoritarismo espoletado por Trump, que pode ter réplicas na Europa, está a permitir a Erdogan reforçar o poder sem ter de ouvir críticas do Ocidente.

O próximo passo para continuar a centralizar o poder é o referendo a uma nova constituição a 16 de Abril. Erdogan diz que vai modernizar um sistema que tem manietado a Turquia e que a nova constituição vai garantir estabilidade e segurança numa era turbulenta.

A oposição diz que o referendo vai ser injusto e que Erdogan quer impor uma ditadura. Com uma imprensa amordaçada (o país está na posição 151 de 180 países no índice de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras), a independência dos magistrados reduzida a quase nula e após 140 mil pessoas terem sido detidas ou despedidas nos sete meses após a tentativa de golpe, será que Erdogan precisa mesmo de mais poder?

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