A Europa está cercada de problemas para os quais nunca criou soluções. Trump tem razão. A Europa deveria estar a fazer mais pela sua própria defesa.

Quando Chamberlain regressou de Munique, agitando o documento com o compromisso de Hitler, a multidão que o esperava ansiosa ovacionou-o como um herói. Que diferença para a vida dos ingleses faria, afinal de contas, o destino dos checos lá longe, encravados no meio do continente? O primeiro-ministro evitara a guerra, aparentemente, e era tudo o que importava.

Afectados pela crise e por um sistema internacional instável, cada vez mais tributários da ideia de ordem dos autoritarismos europeus, os britânicos admitiam o fim do seu estatuto de potência dominante. Cooperar com os nazis, dar-lhes o almejado espaço vital, adiar o confronto, não lhes parecia assim tão mal. De Guernica a Bratislava, a mensagem foi ouvida: sois meros peões. A paz far-se-ia, se necessário, na cedência aos agressores, ao arrepio das regras internacionais e das organizações do multilateralismo.

Também os Estados Unidos preferiram o isolacionismo após a Grande Guerra. Barricados no seu continente-ilha, a sua segurança dispensava bem o caos europeu. Mas não se contêm as ambições alheias sem revelar uma determinação férrea para as travar. Quando os americanos acordaram do seu torpor, os alemães sobrevoavam a Inglaterra, encaminhavam-se para Moscovo e patrulhavam o Atlântico. A carnificina global serviu-lhes de lição. A política internacional passou a ter a omnipresença americana, para o bem e para o mal.

A nova superpotência fez um pacto de confiança com os seus aliados e criou uma gigantesca rede de parcerias e tratados. Os americanos tratavam da protecção dos aliados; estes não buscariam uma auto-suficiência militar que questionasse a sua supremacia. Num mundo nuclear, havia boas razões para aceitar o acordo. E o consenso intervencionista atravessou todas as administrações, republicanas e democratas, durante décadas. No bloqueio a Berlim, a ponte aérea americana serviu de aviso aos soviéticos e serenou as elites ocidentais: a defesa dos aliados era um elemento intrínseco da sua própria defesa.

Em cima dos escombros desse muro, a América teve a sua embriaguez unipolar. Mais do que a paz, o fim da Guerra Fria abriu-lhe o apetite para a expansão do seu domínio. O proselitismo liberal, o alargamento da NATO e o unilateralismo frequente criaram o ambicionado mundo novo de mercados abertos e desequilíbrios globais. Apesar do golpe do 11 de Setembro e da desaprovação internacional, é com confiança que se atola nas areias do Iraque.

Obama dá sinal da fadiga imperial na sociedade americana. O retraimento estratégico reconhece a impossibilidade de policiar o mundo perante a emergência de tantas potências regionais. Entre o Médio Oriente e o Mar do Sul da China, a opção tornou-se evidente. É no espaço aberto por esse retraimento que a Rússia refaz a sua afirmação na cena internacional, mesmo que as suas capacidades económicas e militares não correspondam à força da sua retórica.

No discurso democrata contra Putin, mas que tolera os seus avanços na Ucrânia e na Síria, e no anúncio de Trump de um acordo com os russos para centrar as suas atenções na China, há mais continuidade do que se imagina. O legado de Obama, ofuscado pela visão acrítica do seu estrelato, é um problema. Como se avaliarão as acções de Trump no futuro, à luz do uso actual de ‘drones’ ou do desastre na gestão da Líbia, Síria e outros dossiês?

Em defesa de Obama, reconheça-se que ele nunca proporia a proliferação nuclear entre aliados ou a dissolução da NATO, quebrando compromissos de décadas. O que exigirá uma Rússia autoritária em troca da cooperação na gestão destes problemas regionais?

A Europa, no fio da navalha, ameaçada pela dissolução interna, pela estagnação económica e pelo populismo, está cercada de problemas para os quais nunca criou soluções. Estas eleições têm de nos fazer questionar sobre o conforto do cobertor em que nos enredámos. Paralisada do Mediterrâneo à Síria, da Turquia à Ucrânia, seremos novamente tratados como peões. Trump tem razão. A Europa deveria estar a fazer mais pela sua própria defesa.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

 



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