A era da senhora Angela Merkel?

O timing não podia ser mais apropriado. Na semana em que o Eurogrupo negociou o desbloqueio de uma nova tranche de ajuda à Grécia surgiu um relato de bastidores de uma reunião anterior, em fevereiro de 2015.

O jornal Público recuperou um excerto do livro de Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças de Atenas, no qual ficou claro o poder que a chanceler alemã exerce sobre a zona euro.

Varoufakis conta como Angela Merkel fez um acordo secreto com a Grécia, isolando o ministro das Finanças, Wolfgang Schaüble. O acordo acabou por durar pouco, o executivo grego acabaria por convocar um referendo e a saga continuou. Segundo Varoufakis, a reunião serviu para Merkel confirmar “o seu poder para usurpar o controlo do Eurogrupo”.

O relato é, como seria de esperar de Varoufakis, colorido. Surpreendente? Talvez. Porque é que é relevante agora? Por várias razões.

O poder de Merkel, já significativo na altura, parece ter crescido. Um dos ângulos interessantes no excerto é o papel de Macron nas negociações de 2015. O então ministro da Economia francês terá mediado o acordo. No entanto, Macron viria, diz Varoufakis, a ser afastado das negociações subsequentes, por se ter mostrado favorável demais às exigências de Atenas.

Problema para Merkel? Não. Habilmente, a chanceler estendeu o apoio à campanha presidencial de Macron e tem agora um aliado com quem já prepara um novo percurso para fortalecer a zona euro.

Mas não é só na área da moeda única que se sente o crescente poder de Merkel, é em toda a União Europeia. A posição firme da Alemanha sobre o Brexit tem unido o bloco, contra as expectativas. As trapalhadas dos Conservadores britânicos só vieram dar força a essa posição unida.

Nos países da periferia da zona euro, onde se sofreu mais com a austeridade imposta pela Europa de Merkel, poderá ser difícil aceitar elogios à chanceler. Mas é difícil negar que a Europa está a dar sinais de melhoria, pelo menos no plano económico (com créditos também para Mario Draghi).

Na Alemanha, há meros meses uma vitória de Merkel nas eleições de setembro era vista como estando em risco, devido à decisão de acolher um milhão de refugiados desde 2015. Mas a integração tem sido mais suave que o esperado e Merkel já tem uma vantagem significativa nas sondagens e estabeleceu acordos de coligações governativas (a nível regional e federal).

Com a situação doméstica (na UE e na Alemanha) aparentemente sob controlo, não é surpreendente que Merkel se vire para o palco global.

Uma das imagens marcantes da reunião dos líderes da NATO em maio foi a de Macron a desviar-se de Trump para ir apertar a mão de Merkel. O vídeo mostra o desprezo que Trump suscita, mas também a oportunidade que Merkel tem para liderar a tomada de posição global contra algumas decisões do presidente norte-americano.

Sem perder tempo, Merkel respondeu às exigências de Trump para os europeus contribuírem mais dinheiro para aliança atlântica com uma resposta dura, dizendo que a era na qual se podia contar com os aliados acabou. Passados dias, Merkel voltou à carga, criticando a saída americana do Acordo de Paris como “profundamente lamentável”.

Nesta era em que os EUA parecem estar a ser liderados de forma errática, a Rússia continua nas mãos de Putin e a China virada mais para problemas económicos, podemos até nem gostar, mas a voz do mundo livre é a de Angela Merkel.

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