A nova tecnologia destrói empregos, mas não trabalho. Isto porque cria indústrias novas, e à medida que vão deixando as tecnologias existentes obsoletas, vão originando novas oportunidades e novos postos de trabalho.

“É improvável vencer. Sou um modelo ultrapassado. O T-X é mais rápido, mais forte e mais inteligente. É uma máquina assassina muito mais eficaz que eu”. – Exterminador 3, Ascensão das máquinas

 

Historicamente, existe uma relação complexa entre ciclos de forte inovação tecnológica e a forma como esse impacto causa um efeito disruptivo nos padrões da sociedade, sobretudo quando interfere directamente no mercado de emprego. Apesar das discussões, no final do dia a inovação resulta sempre na criação de novas oportunidades de negócio e de maior criação de valor e qualidade de vida, acabando por ter impactos nulos na criação de oportunidades de trabalho – o que se verificou sempre foi uma transformação nas funções existentes, que, dentro dos mesmos sectores, criaram novas soluções de empregabilidade. Mas a realidade é que estas transições nunca foram feitas sem custos, e o debate reacende-se sempre que nos encontramos perante um momento potencialmente disruptivo.

Hoje, a sociedade vive sob uma nova ameaça associada aos enormes desenvolvimentos dentro da automação e inteligência artificial, e que, de acordo com alguns observadores, pode vir a ser devastadora no que diz respeito à destruição de postos de trabalho. Um relatório de novembro de 2017, produzido pela Mckinsey, aponta para a possibilidade de se perderem entre 400 a 800 milhões de postos de trabalho a nível global até 2030, pelo efeito de substituição provocada pela implementação de maior tecnologia de automação na atividade das empresas, na senda de uma maior eficiência operacional. Só nos Estados Unidos, a maior economia mundial, o efeito de substituição pode atingir até um terço dos postos de trabalho, algo entre os 40 e 70 milhões, que deverão ser extintos.

A verificar-se, esta seria sem dúvida uma transição com inegáveis impactos em termos sociais, com evidentes implicações políticas à escala global – isto é, afectando sobretudo as gerações de meia-idade, que teriam de se adaptar a uma nova forma do mundo funcionar, naquela que, para alguns especialistas, pode representar a maior alteração em mais de 100 anos, com a passagem de uma sociedade puramente agrícola para uma era industrial.

A tecnologia tornou-se mais acessível e evoluída

O mundo tornou-se exponencialmente digitalizado nas últimas décadas, e os avanços na área da robótica e Inteligência Artificial levam-nos a crer que o conceito de uma máquina que possa fazer praticamente tudo o que faz um ser humano – algo muito ligado à ficção cinematográfica desde meados dos anos 80 – está bastante próximo da realidade. Contudo, esta noção é manifestamente exagerada, pois existem enormes barreiras cognitivas e até sensomotoras que são ainda enormes barreiras a superar pela ciência.

No entanto, a evolução da tecnologia tem vindo a acelerar de ritmo, num mundo onde o armazenamento de dados e a recolha de informação, variável vital para desenvolver automatismos com aplicações industriais, se encontra cada vez mais acessível. Ou seja, cada vez existe mais informação disponível (com os comportamentos dos consumidores a terem uma maior impressão digital) e os custos associados são cada vez mais baixos para maiores capacidades. Assim, é expectável que, na próxima década, muitas das soluções que agora estão a ser testadas em setores importantes da economia tradicional – como o setor financeiro, os transportes, o retalho ou a saúde – possam passar rapidamente para uma fase de implementação total, influenciando de forma clara o mercado de emprego.

O passado diz-nos que haverá transição e não destruição

Se olharmos para momentos da história em que houve inovações disruptivas, não é líquido podermos afirmar que a inovação tecnológica trouxe destruição de postos de trabalho. Por exemplo, no princípio do século XX, cerca de 40% da população norte-americana trabalhava no setor primário, e hoje em dia não chega a 2%, embora a maior economia mundial permaneça com taxas de desemprego baixas. Mais recentemente, na década de 80, a introdução dos computadores pessoais (PC) nas empresas, que era vista como ameaça, acabou por ser uma criadora líquida de emprego – entre postos trabalho perdidos e criados, a consultora Mckinsey, no seu relatório de dezembro sobre tecnologia e destruição de emprego, identifica um efeito positivo de 18,5 milhões de postos de trabalho associados à introdução do PC.

Ou seja, a nova tecnologia destrói empregos, mas não trabalho. Isto porque cria indústrias novas, e à medida que vão deixando as tecnologias existentes obsoletas, vão originando novas oportunidades e novos postos de trabalho. Um exemplo recente está relacionado com os novos ecossistemas dos telefones inteligentes, vulgarmente conhecidos como smartphones. Há duas décadas atrás, eram residuais os profissionais que desenvolviam aplicações para estes aparelhos. Hoje em dia, é uma profissão que envolve milhões de pessoas e um setor onde as receitas subiram exponencialmente – a título de exemplo, em janeiro, a Apple (que produz um dos mais emblemáticos terminais inteligentes, o I-Phone) divulgou que os profissionais de desenvolvimento de aplicações (app-developers) geraram 86 mil milhões de dólares desde que a app-store foi lançada em julho de 2008, ou seja, em dez anos registou-se uma média simples de 8,6 mil milhões de dólares por ano, apenas na loja da Apple.

A transição pode ser dolorosa, aumentar a desigualdade e trazer instabilidade geopolítica

Contudo, não se podem ignorar os desafios que uma transição deste tipo pode trazer, sobretudo a nível social. A automação pode não ser o desastre que alguns vaticinam, mas irá forçar uma transição que dificilmente não terá custos sociais, uma vez que a dimensão da mutação pode ser enorme. De a cordo com a Mckinsey, pode atingir até 14% da população mundial, com especial enfoque para os países desenvolvidos. A adaptação aos novos postos de trabalho irá exigir maior qualificação técnica e capacidade para funções que requerem mais competências emocionais, cognitivas ou criativas. Ou seja, as aptidões mais complexas de serem replicadas pelos processos de automação.

A transição também poderá aumentar a desigualdade de rendimentos e a mobilidade social, sobretudo nas economias desenvolvidas, com aumento da pressão da procura pelas funções mais bem pagas, ao mesmo tempo que a maior parte da procura por funções mais tradicionais e menos bem remuneradas tenderá a diminuir. Se o processo de transição for muito demorado, então esta desigualdade pode trazer um impacto social e político elevado, até porque a pressão vai afetar sobretudo as gerações de meia-idade, com responsabilidades familiares maiores e menor capacidade de adaptação, mas maior capacidade de influenciar alterações e decisões no âmbito político. No final do dia, isto poderá espoletar fenómenos protecionistas e populistas, numa resistência à mudança, que pode atingir proporções perigosas tendo em consideração a dimensão demográfica associada.

‘Bottom’s up’: provavelmente, o impacto da automação é exagerado e controlável

Os estudos têm tendência para trabalhar cenários catastróficos, porque é essa também a sua função – criarem cenários de limite extremo. Os relatórios produzidos por algumas casas de investimento e pelas consultoras apontam para um cenário extremo até 15% de destruição de emprego. No entanto, nas mesmas análises, também sublinham que poderá não ser superior a 3% até 2030. Depois, a realidade dos factos tende a demonstrar que o engenho humano tem capacidade para evitar que os impactos em termos de destruição de emprego atinjam proporções catastróficas, e a própria automação pressupõe que existam alterações graduais nos padrões de comportamento humano – por exemplo, seria complicado um paciente aceitar ter uma cirurgia médica completamente automatizada, sem supervisão humana.

Adicionalmente, é difícil imaginar que o Estado e as Instituições, pelo menos nos países desenvolvidos, não regulem ou criem mecanismos no sentido de garantir que, em primeiro lugar, a transição para uma maior automação nas economias é feita de forma regulada, testada e gradual, e, em segundo lugar, que a transição dos indivíduos será feita com rede de apoio, para evitar a criação de uma bolsa de desempregados estrutural – e cujos efeitos seriam devastadores para a estrutura social. Mas isso também significaria destruir a base de consumidores das economias desenvolvidas, o que, por si só, também incentiva a inovação a ser realizada de forma mais gradual.

Como é óbvio, a automatização não é um evento negligenciável, pelo que terá de ser alvo de atenção não apenas dos decisores políticos, mas também dos decisores de negócio e reguladores, que terão de trabalhar soluções que tragam maior eficiência produtiva, mas que sejam imbuídas de responsabilidade social, que ajudem a promover uma transição suave para as franjas mais fragilizadas de trabalhadores.

Algumas destas ideias podem passar por programas inovadores de mudança de carreira, vocacionados para estimular mentalmente a mudança profissional como um ativo e, eventualmente, instituir uma espécie de dividendo financeiro social, em que a eficiência tecnológica é utilizada para compensar a perca de posto de trabalho aos trabalhadores que foram vítimas da automação. Este é um debate que vai, sem dúvida, reacender ideologias políticas em torno da criação de valor e do renovado papel do Estado e da responsabilidade social das empresas em momentos de mudanças disruptivas.




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