A Conspiração Contra a América

Será importante que a parte da América a quem ainda resta bom senso recupere o controlo. A resistência contra o abuso de poder pode não ser suficiente por si só.

No livro A Conspiração Contra a América, de Philip Roth, o autor recria um cenário histórico alternativo em que Charles Lindbergh teria ganhado as eleições contra Franklin D. Roosevelt em 1940, alterando radicalmente o curso da História. Após a vitória de Lindbergh, ganha contorno no romance uma América colaboracionista do regime nazi e progressivamente anti-semita e persecutória.

Em 2016, a eleição de Donald Trump induziu o efeito quase alucinatório de nos fazer sentir presos entre duas realidades: a realidade atual e uma realidade alternativa — tal como poderia ser descrita por Roth — mas que se tornou subitamente a nossa realidade. Quase seis meses após a eleição, as consequências têm provado ser não menos ominosas do que na obra de Roth. Para além das fraturas ideológicas profundas que esta eleição causou, e das lutas internas em curso, as decisões trumpistas têm sido representativas da intolerância, paranóia, ignorância e corrupção que têm manchado todos os dias esta administração, criando o caos na sociedade.

Mas é a investigação sobre o conluio de Trump e dos seus oficiais com o Kremlin que tem gerado os choques mais difíceis de sustentar. Até onde chega o nosso conhecimento, a administração Trump está a ser investigada por obstrução à justiça (a começar pelo Presidente), lavagem de dinheiro e empréstimos suspeitos debaixo da mesa, e por propor um pacto à Rússia de interferência cibernética nos resultados das eleições em troca do fim das sanções económicas contra aquele país.

Tem sido (demasiado) fácil mergulhar nos threads infindáveis no Twitter de advogados e juristas americanos a definir as consequências legais e a especular sobre os cenários que se podem desenrolar num futuro próximo, e que podem levar a acusações formais de traição e conspiração contra a América ao mais alto nível executivo. Todas as atenções estão centradas no Special Counsel Robert Mueller, o homem que conduz uma investigação independente à atual administração. Não por acaso, Mueller corre o risco de ser despedido, desencadeando uma crise constitucional na América muito mais perigosa e subversiva do que o Watergate.

Nenhum romancista foi capaz de ir tão longe na previsão deste cenário político, até há três anos considerado impensável. Isto apesar de Stephen King ter previsto um Presidente louco semelhante a Trump em The Dead Zone, de 1979. É inegável que este contexto político enfraquece o papel da América a um nível global e fragiliza a sua influência, cada vez mais minada pela megalomania russa, pelo wahabismo saudita galopante e outros jogadores que estão a mover as peças do jogo dos tronos em circunstâncias nem sempre conhecidas pelo público, mas a verdade é que não convém a ninguém (a não ser a senhores de guerra) uma América dilacerada por conflitos.

Será importante que a parte da América a quem ainda resta bom senso recupere o controlo antes que a administração Trump se aproveite de um evento global de grande impacto para introduzir um estado de emergência, lançar uma nova guerra internacional e pôr em perigo a democracia. Pois se há lição a reter da obra de Philip Roth é que a resistência contra o abuso de poder pode não ser suficiente por si só.



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